Em suma, é difícil ter uma conversa sobre a natureza da adoração bíblica que não implique algum tipo de análise da apresentação musical na Bíblia. É forçado no sentido de que já decidimos, antes mesmo de consultarmos as Escrituras, o que é adoração, e por isso a buscamos nas Sagradas Escrituras.
Jed Ostoich
Quando alguém diz a palavra “adoração”, o que lhe vem à mente? Em muitas imaginações — se não na maioria — algum tipo de música acompanha a palavra. Pensamos em alguma música, letras de música e talvez seu cantor ou banda favoritos. A música de adoração como categoria é tão grande que gera milhões de dólares como indústria todos os anos e não mostra que vai desacelerar.
Na subcultura evangélica ocidental, adoração é música, principalmente por estar sempre relacionada a louvor. E não há muita dúvida quanto a isso. Claro, pastores e professores apontarão que a adoração pode ser tanto privada quanto coletiva — que você não precisa de uma banda e um palco para adorar a Deus. Mas não podemos nos afastar da noção predominante de que adoração é música. As igrejas reservam as partes iniciais de seus cultos para “adoração”, e isso significa — sem exceção — cantar algum tipo de música.
Em suma, é difícil ter uma conversa sobre a natureza da adoração bíblica que não implique algum tipo de análise da apresentação musical na Bíblia. É forçado no sentido de que já decidimos, antes mesmo de consultarmos as Escrituras, o que é adoração, e por isso a buscamos nas Sagradas Escrituras.
Mas isso é um pouco fora de ordem — deslizar morro abaixo sem saber realmente onde estão os cactos… Nos próximos parágrafos, vamos deixar de lado a questão da música e analisar uma das primeiras explicações de adoração na Bíblia. Se a música aparecer, ótimo. Se não, teremos que pensar mais criticamente sobre isso no futuro.
Um verso surpreendente sobre adoração
No início da história bíblica, há um pequeno versículo notável, mas frequentemente esquecido. O primeiro capítulo de Gênesis apresenta a criação em um nível macro. Ele nos apresenta a formação da Terra e seu preenchimento, bem como a criação de seus governantes e a bênção e a tarefa que Deus lhes dá.
Mas o capítulo dois adota uma abordagem diferente. Ele analisa a criação da humanidade de uma perspectiva mais íntima, mais prática. Em vez de Deus falar e trazer os primeiros humanos à existência, como no capítulo um, o capítulo dois mostra o Criador de joelhos, brincando com lama (Gn 2:7). Não apenas isso, mas também a criação de uma espécie de espaço sagrado — um jardim — para o desfrute humano.
Agora, nesse ponto, a passagem se desvia para uma espécie de descrição narrativa do Éden e das terras vizinhas, destacando todas as joias e metais preciosos da região. É um detalhe que parece desnecessário a princípio, e só quando lemos até o livro do Êxodo é que se torna crucial.
Mas precisamos parar e reconhecer que não fomos o primeiro público das palavras de Gênesis, e sim foi a geração de Israel que sobreviveu aos quarenta anos de peregrinação nos lugares desolados do Neguebe. As palavras de Gênesis os atingiram de forma diferente, pois já continham o contexto completo de como seu povo adorava Javé por décadas. Mesmo assim, se formos bons e cuidadosos leitores da Bíblia, a descrição da paisagem do Éden deve permanecer conosco.
Em Gênesis 2:15 lemos o seguinte: O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cultivá-lo e tomar conta dele. Nesse texto precisamos destacar uma ideia quase esquecível, de que Deus colocou o ser humano no jardim para “cultivá-lo e tomar conta dele“. Parece repetitivo, pois o versículo oito já afirmava que Deus havia colocado o homem no jardim. O significado do versículo, no entanto, reside na escolha das palavras — algo que raramente aparece em traduções para o inglês, mas que se destaca nas luzes de neon do hebraico original.
Três Palavras Importantes
A primeira palavra que vale a pena considerar tradicionalmente é traduzida como “colocou”, sim, essa mesmo, “colocou”. A palavra ali não é a mesma usada no versículo oito. É a palavra da qual obtemos o nome Noé alguns capítulos depois, e o termo é, em si, um trocadilho com a ideia de que Noé traria descanso. A palavra “colocar” aqui em Gn. 2:15 vem da família semântica de descanso. E, aqui, assume o sentido de que Deus, ao pousar o ser humano no jardim, foi intencionalmente para colocá-lo em repouso em seu devido lugar.
Assim como Deus desfrutou do descanso de sua obra na criação do mundo, agora o ser humano está em seu lugar, em um estado de repouso. Devo ter cuidado para não exagerar na comparação, visto que o contexto e a história da tradução não clama pela opção por “descansar” em vez de “colocar”. Mas é a nuance da palavra que importa, e talvez “repouso” fosse uma opção interessante. O autor escolheu nuach em vez outras palavras com uma intenção muito clara, nos mostrar que o jardim era o lugar de descanso e comunhão entre Deus e a humanidade.
Em segundo lugar, as palavras tradicionalmente traduzidas como “cultivar” e “tomar conta” (às vezes “cultivar” e “guardar”) têm seu próprio sabor. O hebraico é particularmente difícil, visto que o “lo” em português é — no hebraico — um sufixo feminino acrescentado às palavras “cultivar” e “tomar conta”. O problema é que há exatamente zero antecedentes para a palavra “lo” que correspondam em gênero.
As opções são duas: ou dizemos que foi um acidente de escriba e o referente foi — como é tradicional — o jardim, ou dizemos que foi proposital e, novamente, enxergamos diferentes para o texto. As consoantes em hebraico que formam o sufixo pronominal feminino (novamente, o “lo” do português) podem formar, e de fato formam, o infinitivo de um verbo. O efeito neste versículo seria simplesmente eliminar o “lo” por completo: “trabalhar e manter”.
É uma pequena mudança, mas importante. As duas palavras traduzidas como “cultivar” (abad) e “tomar conta” (shamar) aparecem juntas mais tarde nos primeiros cinco livros da Bíblia. Abad pode significar e significa “trabalhar”, mas também “servir” e “adorar”, o que é impressionante! Considere Josué 24:15, que diz: “Quanto a mim, eu e minha família serviremos ao Senhor”, que poderia ser traduzido por “trabalharemos para o Senhor”, ou “adoraremos ao Senhor”.
Enquanto isso, o termo shamar significa “manter” ou “guardar”, como em “guardar meus mandamentos”. No livro de Números, onde as duas palavras aparecem juntas com frequência, elas significam todas elas de uma só vez (Números 4:27-32; 8:25-26; 18:4-6). Lá, as palavras pintam um quadro da mordomia dos sacerdotes no cuidado e operação do tabernáculo. O próprio tabernáculo foi construído cheio de temas e pinturas artísticas do jardim do Éden. Lembra daqueles versículos estranhos descrevendo os metais e joias preciosas do Éden? Esses mesmos itens aparecem em toda a fabricação do tabernáculo em Êxodo, e tudo isso é intencional, para mostrar que o Tabernáculo e o Templo é um lugar onde a presença perdida do Éden é acessível de novo. O tabernáculo e o templo são o lugar a partir de onde Deus quer restaurar toda a sua criação.
Adore com toda a sua vida
O público original que ouviu as palavras de Gênesis pela primeira vez teria imaginado os sacerdotes e levitas imediatamente ao chegar a Gênesis 2:15. Teriam imaginado a adoração não como música, mas como mordomia, isto é, como o cuidado e o cultivo do lugar santo de Deus. Mas o paralelo se torna ainda mais pungente com a incumbência que Deus dá a Israel em Deuteronômio 10:12-13, instruindo o povo: “Agora, Israel, o que o Senhor, seu Deus, requer de você? Somente que você tema o Senhor, seu Deus, que viva de maneira agradável a ele e que ame e sirva (abad) ao Senhor, seu Deus, de todo o coração e de toda a alma. Obedeça (shamar) sempre aos mandamentos e decretos do Senhor que hoje lhe dou para o seu próprio bem.”
Enfatizei as palavras “servir” e “obedecer” em Deuteronômio porque são os mesmos infinitivos que encontramos em Gênesis 2:15. Cinco livros depois, eles têm praticamente a mesma força: o povo de Israel estava prestes a entrar na terra prometida, que seria repleta de casas, campos e alimentos que eles não construíram, nem plantaram nem cultivaram (Dt 6:11). Como os primeiros humanos repousando em um jardim que não cultivaram, Israel iria desfrutar do fruto das mãos de Deus. Sua tarefa, de acordo com Deuteronômio 10, era a mesma de Adão e Eva: adorar seu Deus, administrando suas dádivas e guardando seus mandamentos.
Então, o que tudo isso tem a ver com adoração? A maioria de nós pensa que adoração é algum tipo de música, temperada com hinários empoeirados ou máquinas de fumaça. Mas o mundo antigo e os primeiros leitores do primeiro livro da Bíblia imaginaram algo diferente.
Eles viam com os olhos da mente o trabalho sacerdotal de cuidar, guardar e operar o tabernáculo — o Éden em miniatura de Deus. Ouviram a ordem da coluna de fumaça no Sinai, instruindo-os a viver a devoção a Deus com todos os aspectos do seu ser e a guardar os Seus mandamentos. Assim como no Éden, a adoração era a sua vida. Como cuidavam das dádivas que lhes eram dadas, como trabalhavam e se moviam, e como obedeciam. A soma total de suas vidas era adoração. Claro que eles podiam e cantavam. Mas adoração não era isso, era muito mais do que apenas as músicas.
Adoração, como a Bíblia a retrata, é a tarefa de orientar todos os aspectos da nossa vida para expressar nossa lealdade e amor a Deus. Nesse processo, cantar faz parte disso, mas não se esqueça do resto do seu ser.